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Archive for the ‘Televisão’ Category

socrates entrevista expresso

Não vou analisar os efeitos políticos da entrevista de José Sócrates ao Expresso. Teoricamente, eles serão nenhuns. Não se vislumbra, de imediato, lugar para ele nas instâncias politico-partidárias. Embora esquerda e direita tremam, cada um para o seu lado.

Mas o seu efeito mediático foi gigante. E a omnipresença de Sócrates na esfera dos jornais, dos blogues e dos comentários não vai parar tão cedo. Geram-se enormes expectativas sobre o lançamento do livro depois de amanhã.

Quero apenas deixar umas notas sobre a entrevista, ou melhor, sobre o resultado da entrevista:

– Desde logo, o local: um restaurante. O facto de não ser num escritório, ou em casa, ou seja no território do entrevistado, transmite a primeira mensagem: liberdade. O cidadão do mundo em que José Sócrates se tornou.

– A aparência: moderna e “casual”. Tal como se apresentou mais tarde na entrevista a Herman José na RTP1. Uma imagem que, mais uma vez, transmite autonomia. Cores e padrões neutros, correctos.

– O tom: casual, coloquial, a resvalar para o negligente. Aqui penso que resultou mais de uma não-edição propositada da entrevistadora do que a intenção do entrevistado. Reforça o tom intimista e, mais uma vez, a espontaneidade. Talvez tenha resultado num “excesso de posicionamento” de descomprometimento.

Estes terão sido os pontos mais positivos da entrevista, do ponto de vista formal.

Sobre a edição propriamente dita, ao optar pela “narrativa” em vez da fórmula pergunta-resposta, a entrevistadora criou algum caos na leitura e na interpretação. Ficou.me várias vezes a dúvida se algumas declarações resultaram de respostas incompletas ou de temas forçados pelo entrevistado.

Creio que Sócrates beneficiou mais da entrevista televisiva com Herman José. Que também teve no sábado passado a melhor audiência de sempre.

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Convidado: Joaquim Martins Lampreia


Celebra-se este ano, um pouco por todo o mundo, o centenário do nascimento de Marshall Mcluhan, parecendo-me oportuno prestar um justo tributo a este vulto da comunicação.

Por já o ter expressado publicamente por diversas vezes, penso não ser novidade a minha profunda admiração por McLuhan. Nem tão pouco deve surpreender a minha costela “McLuhanista”, oriunda da formação de base recebida no inicio dos anos setenta, e que foi totalmente moldada pelas ideias do nosso “Mestre” de então.

Mas este canadiano foi muito mais do que um Guru da comunicação. Sem dúvida que as ideias geniais que introduziu  revolucionaram por completo este domínio do conhecimento e tanto as Relações  Públicas como o Jornalismo, e sobretudo a Publicidade, sofreram alterações  profundas no seu conceito e metodologia. Para além de um dos maiores pensadores  do século XX, McLuhan foi também um filósofo e um historiador que soube como  ninguém rasgar horizontes novos na comunicação de massas.

Com ele voltou-se a escrever a história da humanidade a partir da evolução dos Meios de Comunicação, desde a invenção da escrita, até aos nossos dias, passando por Gutenberg e Marconi. A ele se deve também o conceito de “Aldeia Global”, que, com o advento das Redes Sociais, não podia estar mais actualizado.

O lançamento do seu livro mais emblemático “The Medium is The Massage”, já perfaz quase meio século (1964) e também ele é de uma actualidade espantosa, ilustrando bem sua visão quase profética da sociedade ocidental.

Por curiosidade refira-se que o título do livro é esse mesmo, “massage” e não “message”, que era a ideia original do autor mas que, devido a uma gralha, apareceu com esta forma nas primeiras provas da tipografia.

Tanto McLuhan como o editor acharam este erro tipográfico “muito interessante e oportuno” e resolveram manter o título assim mesmo. O que McLuhan queria dizer originalmente com “The Medium is The Message” é que o Meio através do qual se comunica já é em si mesmo parte da própria Mensagem que se quer comunicar, sendo indissociável desta.

 

Esta nova visão alterou substancialmente a forma e o conceito criativo publicitário da altura, que compartimentava excessivamente o “Copy Strategy” e o “Media Strategy”.

A “Galáxia Gutenberg” é a outra das suas obras primas, onde a história da humanidade é analisada unicamente através da óptica da comunicação, nomeadamente o período que vai da descoberta da escrita à invenção da tipografia e da palavra imprensa, com Gutenberg. A fase em que as sociedades trocaram o “ouvido pelo olho”, como ele dizia, e  permitiram a disseminação maciça do conhecimento.

O mais extraordinário nas suas obras, todas elas de grande profundidade de pensamento, é a simplicidade e a clareza com que McLuhan consegue explicar as suas teorias e os seus pontos de vista. Inúmeras vezes vai buscar exemplos ilustrativos a obras de Shakespeare, James Joyce e outros, autores clássicos para conseguir transmitir a sua mensagem com espantosa clareza.

No seu outro livro de referência, “Understanding Media”, analisa os Meios de Comunicação como extensões do ser humano, “tal como o martelo é o prolongamento do braço do operário, os Meios são o prolongamento dos nossos sentidos”.

Neste livro transpôs uma passagem extraordinária que não resisto em copiar, pela clareza da descrição.

Trata-se do momento exacto em que um ser selvagem e iletrado se apercebe pela primeira vez da importância da palavra escrita, em oposição à palavra oral, a única que conhecia até então. Este texto serve também para ilustrar a tese de McLuhan, sobre a evolução das  sociedades, em que se troca “o ouvido pelo olho”.

“Sobre o seu encontro com o mundo  escrito, na África Ocidental, escreveu o Príncipe Modupe:

Na casa do Padre Perry, o único  lugar totalmente ocupado era o das estantes de livros. Gradativamente cheguei a  compreender que as marcas sôbre as páginas eram palavras na armadilha. Qualquer  um podia decifrar os símbolos e soltar as palavras aprisionadas, falando-as. A  tinta de impressão enjaulava os pensamentos; êles não podiam fugir, assim como  um dumbu não pode fugir da armadilha. Quando me dei conta do que realmente isto  significava, assaltou-me a mesma sensação e o mesmo espanto que tive quando vi  pela primeira vez as luzes brilhantes de Conacri. Estremeci, com a intensidade de meu desejo de aprender a fazer eu mesmo aquela coisa extraordinária que é: ler!”

Apesar de já ter falecido há três décadas (1911-1980), o seu pensamento continua espantosamente actual, tendo conseguido antecipar o efeito de homogeneização e desumanização dos Mass Media, em simultâneo com a aproximação dos povos, muito anos antes da Internet dar os primeiros passos.

Parece-me pois de extrema justiça que lhe seja feita esta homenagem nos 100 anos do seu nascimento.

Para os interessados, e já que em Portugal não se fez até à data qualquer referência ao assunto, o programa das comemorações do “100 years of Mcluhan! The global village is now”, pode ser consultado em: http://marshallmcluhan.com e no Twitter em @marshallmcluhan.

J. Martins Lampreia

Consultor/Lobista

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O arigo de hoje de João Adelino Faria  no Diário Económico constitui uma corajosa declaração de um profissional de comunicação sobre a ilusão da informação que diariamente nos entra porta (televisão) dentro.

A propósito da Comissão de Ética no Parlamento, transmitida ao que parece com elevado share na AR TV e outros canais, JA Faria tece várias considerações sobre os efeitos nefastos dos directos televisivos. Como profissional experiente, ele sabe que “Muitas das convicções que algumas pessoas defendem e dizem acreditar antes do directo, passam, em segundos, a ter uma versão completamente diferente assim que começa a transmissão televisiva.”

Esta realidade anula a presunção da “verdade” que a televisão pretende mostrar (assistimos hoje a simples cidadãos a exibirem verdadeiras performances de actores, incluindo “remakes”…) e que molda, definitivamente, crenças e atitudes de toda uma população.

José Adelino vai ainda mais longe quando, referindo-se concretamente à Comissão de Ética e duvidando da sua utilidade na busca da verdade, constata aquilo que é  mais mortal para duas nobres profissões : assistir a “alguns deputados a fazer de jornalistas e jornalistas a comportarem-se como políticos”.

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Foto retirada do DN online

O debate ontem à noite entre dois candidatos à presidência do PSD foi revelador de como a comunicação é uma ciência complexa e de como hoje uma figura pública tem de saber navegar em várias águas.

Paulo Rangel, que desceu à terra com a aura do “tribuno implacável” teve o mais duro embate até agora da sua curta vida política num meio e num formato bem distintos da redoma parlamentar. A televisão é implacável na imagem e o debate face-a-face exige capacidades de riposta, “bridging” e “fair-play” que Rangel claramente não domina.

Passos Coelho demonstrou que a longa “rodagem”, e certamente muito treino em “media delivery” são tão ou mais importantes que a mensagem. Coelho tem ainda uma evidente vantagem em termos de imagem (embora a extrema finura dos lábios lhe empreste um ar sempre contrito) e beneficia de incontestáveis dotes de timbre e colocação de voz.

Mas,  como disse Ricardo Costa, o que parece ser evidente em termos de opinião pública em geral (parece incontestável que Passos Coelho venceu o debate) é pouco relevante em termos dos resultados das directas. Aí, as qualidades de oratória e o discurso provocador poderão conquistar uma plateia que, à míngua de poder há tantos anos, decida apostar na truculência atrevida de Rangel. Porque na comunicação interna, o populismo também tem os seus resultados.

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