Sim, o título é uma inspiração da última fita (cinematograficamente falando) de Polanski – que já agora recomendo. O tema é mais caseiro e resulta de um filme muito mau a que se está a assistir nas comunicações oficiais do governo.
A análise não é exaustiva nem pretende generalizar. Mas é um sinal de alerta para a necessidade urgente de se recrutar escritores, revisores, chamem-lhe o que quiserem – mas gente que saiba e ame a língua portuguesa.
No espaço de uma semana, defronto-me com um texto (numa resposta à Assembleia da República) do Gabinete do Ministro das Obras Públicas e com uma “nota” do ministério da Cultura a propósito da morte do actor António Feio.
O primeiro contém um erro por demais, infelizmente, repetido: “Concelho de Administração”. Sem comentários.
O segundo, conforme comentou o jornalista Alexandre Pais, parece uma redacção da antiga quarta classe (provavelmente não ao nível de um actual 4º ano). Vá lá, ao nível de um pré-adolescente.
Tamanha indigência e primarismo não são admissíveis em textos governamentais. Poupem no papel higiénico, nos assessores jurídicos, nas plantas ornamentais, mas, por favor, contratem quem sabe escrever.
Porque quem não sabe escrever não sabe pensar.
O problema está, julgo, no jornalismo. Tanto nas pessoas que se licenciam em Comunicação Social como nos estagiários que “aprovamos” pela cor dos olhos ou por qualquer outra simpatia, passando pela natureza dos cursos, desajustados da realidade, e pela qualidade de alguns “professores” que, coitados, nem para eles sabem, quanto mais.
É muita dessa gente, impreparada e pouco qualificada, que, desempregada também, “invade” agências e gabinetes, ao toque das cunhas, e por lá fica, para desgraça coletiva.
Depois, com o passar dos anos, o problema agrava-se. Os analfabetos passam a “chefes” e tornam, o que seria uma anormalidade, a sua ignorância, numa realidade sem retorno.
Temos de nos conformar? Não, mas devemos compreender que travaremos, então, uma luta destinada ao insucesso. Sei do que se trata e não quero morrer nesse combate.
Caro Alexandre, o jornalismo pode enfermar de alguma falta de qualidade, quando se fala genericamente, mas penso que o problema é mais vasto. Tem a ver com o respeito (já que não se pode exigir amor aos outros) pela Língua, em geral. Nem todos os “escritores” de organismos oficiais têm de ser, necessariamente, jornalistas. Mas quem tem responsabilidades de comunicação pública tem de saber escrever, seja médico, engenheiro ou informático. Infelizmente, é verdade, o ensino não penaliza quem não se sabe exprimir.
Concordo sobretudo com a sua análise de que nem sempre as funções são preenchidas por quem evidencia melhores competências e que os pouco preparados serão eles, também, naturalmente, pouco exigentes com os seus subordinados.
Isto é verdade em todas as organizações mas, pelo menos das entidades oficiais, não devemos aceitar a mínima concessão. Existirá uma ASAE da língua portuguesa? Se não existe, devia existir.
Sim, sim, sim. Totalmente de acordo!
Já nada me espanta. Estive 10 anos a trabalhar num organismo do Estado e não era raro arrepiar-me de quase indignação ao constatar a total indigência no uso da língua portuguesa em todos os suportes disponíveis para consumação dos atropelos. E, de facto, o comunicado do Ministério da Cultura é muito pior do que redacções de 4ª classe (pelo menos, da antiga…). Quanto ao “Concelho de Administração da TAP” nem vale a pena comentar. Estamos a bater no fundo com a maior desfaçatez.
Acho que a ideia do PSL era boa, com uma central de comunicação do governo isto deixava de acontecer.
Bettencourt Resendes, r.i.p.
Bom, mas tendo em conta a procura, o Olimpo tem lá uma série deles. O Tóni acabou de encontrar um para fabricar a sua conversa da treta.
Ministério da Cultura com ghost writer? Não seria preferível então um ghost writer como ministro (a)?
No caso do ministério da cultura, certamente que se exige um nível de discurso bastante acima da “redacção de 4ª classe”. Não é necessário que um bom ministro saiba escrever bem, mas tem de ter bons escritores na sua assessoria.
Quanto a todas as outras comunicações, só se pede que não dêem erros de Português. E aí até poderia ser, de facto, um míudo da 4ª classe, que apenas escreva sem erros.